sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A minha casa

Esgueira - Largo do Pelourinho e Rua Bento de Moura
(década de 1950)
Hoje, por um acaso, ao folhear o livro "Aveiro, Silhuetas do Tempo que Passa", de Amaro Neves e Carlos A. Ramos, deparei com esta fotografia.
Olho-a, e é como um clarão iluminando a memória, avivando imagens desbotadas. Não é o pelourinho que me prende o olhar, nem o casarão dos Paços do Concelho, esses ainda hoje lá estão. O que já não está é a casa ao fundo da rua, a que foi a minha casa, não a primeira mas a primeira de que me lembro, andaria eu pelos seis, sete anos.
O casarão à direita (que só muito mais tarde vim a saber que foram os antigos Paços do Concelho), era por esse tempo a escola primária. Frio, escuro, desconfortável. Lá aprendemos a juntar letras e números, alguns bofetões e reguadas ajudavam quando se fazia necessário.
Nos degraus do pelourinho ainda está sentada uma mulher velha, velha para os meus poucos anos. Já não lhe distingo as feições, o nome sim, recordo-me, Ti Maria Ceboloa. Está vestida de preto, tem um xaile pelas costas, um lenço também preto na cabeça. Ao seu lado, no último degrau, o mais largo, um cesto grande, redondo. Ganha a magra vida a vender fruta, alguns legumes.
Quando a escola acaba, a miudagem derrama-se pelo largo, um ou outro compra uma maçã ou uma pera, um pêssego, às vezes uma romã que estalou mostrando os bagos túmidos, segue depois cada um o seu caminho. Ali vou eu também, sou um dos miúdos, a minha casa está logo ao fundo da rua.

Silêncio

Baixo Vouga

Estender o olhar e ver o silêncio pousado levemente sobre tudo o que os olhos vêem. Só às vezes, junto a mim, o rumor áspero dos caniços ou o murmúrio líquido da folhagem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Enganar o tempo

Baixo Vouga

Hoje, enquanto fazia uma das minhas habituais caminhadas pelos campos do Baixo Vouga, dei comigo a pensar que este exercício a que me "obrigo" quase diariamente não passa, se calhar, de uma tentativa para enganar o Tempo. Mas não se trata, propriamente, de uma obrigação, ou é uma obrigação a que se mistura uma boa dose de prazer, proporcionada pela visão da natureza - as águas, o rumor das árvores, o céu, uma nuvem que passa tocada pelo vento, um caminho estreito ladeado por caniços, as flores que trazem a Primavera, os tons acastanhados do Outono, e, por cima de tudo, envolvendo tudo, o silêncio. Prazer acrescido, aliás, pela música clássica que não me dispenso de ouvir desde que, no Natal passado, me ofereceram um MP3.
Mas voltando ao Tempo. Enquanto caminho, imagino cá para mim o grande safardana a mirar-me, diluído no espaço invisível, ruminando com prazer malévolo:
- Este pensa que me engana, que não ando de olho nele.
Eu sei que andas, grande sacana, ao teu olho implacável, mais que o do Big Brother, nada escapa. Mas ainda assim vou fazendo pela vida. Enquanto puder. O que quer simplesmente dizer - enquanto o ânimo não me abandonar de todo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uma pequenina luz


O nome deste blogue é plagiado. De Jorge de Sena. Do seu belíssimo poema com o mesmo título. Aqui fica.

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola...em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.