Esgueira - Largo do Pelourinho e Rua Bento de Moura
(década de 1950)
Hoje, por um acaso, ao folhear o livro "Aveiro, Silhuetas do Tempo que Passa", de Amaro Neves e Carlos A. Ramos, deparei com esta fotografia.
Olho-a, e é como um clarão iluminando a memória, avivando imagens desbotadas. Não é o pelourinho que me prende o olhar, nem o casarão dos Paços do Concelho, esses ainda hoje lá estão. O que já não está é a casa ao fundo da rua, a que foi a minha casa, não a primeira mas a primeira de que me lembro, andaria eu pelos seis, sete anos.
O casarão à direita (que só muito mais tarde vim a saber que foram os antigos Paços do Concelho), era por esse tempo a escola primária. Frio, escuro, desconfortável. Lá aprendemos a juntar letras e números, alguns bofetões e reguadas ajudavam quando se fazia necessário.
Nos degraus do pelourinho ainda está sentada uma mulher velha, velha para os meus poucos anos. Já não lhe distingo as feições, o nome sim, recordo-me, Ti Maria Ceboloa. Está vestida de preto, tem um xaile pelas costas, um lenço também preto na cabeça. Ao seu lado, no último degrau, o mais largo, um cesto grande, redondo. Ganha a magra vida a vender fruta, alguns legumes.
Quando a escola acaba, a miudagem derrama-se pelo largo, um ou outro compra uma maçã ou uma pera, um pêssego, às vezes uma romã que estalou mostrando os bagos túmidos, segue depois cada um o seu caminho. Ali vou eu também, sou um dos miúdos, a minha casa está logo ao fundo da rua.
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