Dentro de momentos vai partir da linha nº4 o comboio com destino a Aveiro
Os já acomodados olham através das janelas os aflitos que correm,
(uns afectando um desinteresse repassado de superioridade aziumada
- A mania de vir sempre à última da hora
outros desejando satisfações mesquinhas que os desforrem dos seus pequenos mundos
- Era bem feito que perdessem o comboio
folgazões alguns
- Acelera, pá
também indiferentes a quem aquilo não aquenta nem arrefenta)
as pernas ofegantes que procuram chegar ainda a tempo de não ficarem na plataforma a ver o comboio ser engolido pela escuridão do túnel, um último esforço,
(há quem pareça conter-se para não bater palmas)
as respirações arquejantes a salvarem-se no último instante no interior da carruagem, fazendo esmorecer as curiosidades e os azedumes, logo de seguida a estação a ficar para trás, para trás, mais para trás, e de súbito a escuridão para lá das janelas.
Diante de mim uns óculos escuros que descansam as unhas pintadas sobre uma revista pousada nos joelhos desistem de perscrutar as trevas do túnel, deslizam para a revista
(a capa da revista a gritar com fotografia e letra avantajada: Descobrimos, Karina Bacchi namora há quinze dias com Ronaldo. Louca paixão. Mãe da actriz eufórica:"É um menino de oiro!" )
Os óculos escuros (adivinha-se) não tarda que levantem voo. Olham a revista mas sem a verem, perdidos agora em sonhos de aventuranças, a sonharem com Ronaldos impossíveis num suspiro de desalento.
Lá muito em baixo a fita escura do rio encrespada pelo vento, as pontes de um e outro lado, casas encarrapitadas na escarpa numa vertigem de queda, casas velhas a que a voragem do tempo deu cores indefinidas, de paredes a esboroar-se e janelas sem vidraças como órbitas vazias, vagões à desbanda num abandono arruinado, uma antiga fábrica em escombros, prédios feios, roupa a secar em cordas nas janelas, vidas estreitas, tantas vidas estreitas que precisam de almejar Ronaldos mesmo que só em sonhos acordados.
Voltam depois à revista os óculos escuros, a virarem as folhas
(a virarem os sonhos)
passando a outros assuntos importantes da actualidade, mexericos variados, divórcios, as maminhas novas de uma actriz, como manter o parceiro sexualmente interessado, receitas para manter a linha (para manter a ilusão de estar viva).
Tantas vidas estreitas a precisarem de almejar Ronaldos mesmo que só em sonhos acordados, os Ronaldos com tantas faces, férias em praias com palmeiras e águas transparentes, um físico perfeito, roupas caras, cabelos soltos em descapotáveis, telemóveis de última geração, festas elegantes, casas de sonho. E em vez disso os óculos escuros obrigados a um subúrbio atravancado de betão, de prédios feios com a tinta a descascar, obrigados a um apartamento acanhado, móveis baratos, paredes rachadas, dinheiro contado,
(o que fazer aos sonhos?)
roupa a secar em cordas nas janelas, vidas estreitas a precisarem de almejar Ronaldos mesmo que só em sonhos acordados.
Próxima paragem Valadares
Quatro andorinhas de loiça pregadas na parede de uma casa,
(Vivenda Adozinda, O meu lar, 1969)
num voo estático entre a janela e a porta, ali a voarem há trinta e tal anos sempre no mesmo sítio, cobertas de pó. (Também em pó a Adozinda?)
16h21, temperatura exterior 25º
O azul ausente do céu, dunas de vegetação rala dobrada pelo vento, um passadiço de madeira sobre as dunas, e o mar a começar logo ali, a vir até nós o cheiro da maresia e o marulho das ondas apesar das janelas fechadas do comboio, o fervilhar branco da espuma sobre os esporões rochosos que emergem da água, o mar a acabar na bruma que encurta o horizonte. Entre a espuma e a névoa um barco perdido, dois vultos perdidos, de pé, que a ondulação faz subir e descer, subir e descer, subir e descer.
Próxima paragem Espinho
Esqueletos arrepiados de barracas na praia deserta, logo a seguir os primeiros prédios, lojas, hotéis, o casino, apartamentos,
(tantas vidas diferentes)
o chiar dos travões, a agitação das entradas e saídas, olhos inquietos que sondam à procura de um lugar, um suspiro de alívio ao acomodar-se, um remexer de nádegas na busca da melhor posição, por fim um sorriso adivinhado de discreta satisfação nos olhos que seguem por desfastio o que se passa lá fora.
Próxima paragem Esmoriz
Um boné vermelho suspenso sobre um rectângulo de relva num pequeno jardim, duas mãos atentas catando coisas do chão,
(ervas daninhas, o tédio?)
o tempo a passar, lento, nem dão por ele estes dois miúdos que não param quietos, calados muito menos
- Vou abrir a porta
um olho duro
(apenas um olho, o outro é uma névoa esbranquiçada)
do pai a ameaçá-los, apesar disso os miúdos
- É só carregar neste botão
o olho esbranquiçado a levantar-se, a oscilar um pouco com os balanços do comboio, a palmada já no ar
- Já vos tinha avisado.
Alguns momentos de sossego, já não era sem tempo, embora seja pouca a esperança de que durem.
16h39 temperatura exterior 25º
Campos de milho, duas vacas cabisbaixas plantadas no meio do verde, alheadas de tudo, só o rabo incansável enxotando moscas que não se vêem.
E de repente, muitos anos atrás, numa caçada,
(no Caramulo?)
o Roque, o Telmo, o meu pai, o Zé Borrego, o Aníbal, eu,
(não sei já se exactamente estes ou só alguns destes ou também outros)
eu miúdo, gostava de ir com o meu pai à caça, ver os perdigueiros amarrados, estremecer com a revoada súbita das perdizes, sentir o cheiro da pólvora queimada. Nós sentados a uma sombra a escorropichar os cantis, a descansar uns momentos, o Zé Borrego agastado com as moscas que não o deixavam em paz, a sacudi-las com gestos resignados, e o Roque
(sim, o Roque, lembro-me bem)
- Faz-te muita falta o rabo, ó Zé.
Temperatura exterior 24º
Mais casas que passam, um caminho que corre por instantes ao lado do comboio e cessa de repente, a mancha escura de uns eucaliptos
(depressa, não gosto de eucaliptos).
- Avô, sabes até quantos sei contar?
O avô por detrás do jornal, a segurá-lo com dificuldade no meio da névoa do sono
- Até quantos?
a voz entaramelada, um fio cambaleante, e o miúdo
- Quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro
o jornal a desabar de repente sobre as pernas sobressaltadas, as pernas logo num elogio estremunhado
- Sim senhor, agora tens de aprender a contar até cinquenta
indignado o miúdo
- Ó avô, estás a dormir?
Próxima paragem Salreu
Um telemóvel a ladrar de repente
- Estou
a dona a falar alto, como se todos estivessem interessadíssimos na sua vida
(alguns se calhar estavam, os olhos a olharem para um lado e os ouvidos a olharem para a conversa).
Ninhos de cegonha no cocuruto dos postes de alta tensão, esteiros com nuvens, uns sapatos pletóricos donde emergem tornozelos inchados mais largos que os sapatos, por cima das meias uma nesga de pele escamosa, olhos que desistem de lutar contra o sono, braços e troncos oscilando ao ritmo dos balanços do comboio, uns calcanhares escuros e coriáceos escapando de umas chinelas, umas calças de ganga com tamancas vermelhas e unhas pintadas de vermelho,
Próxima paragem Cacia
uma tirinha de papel que se apressa para a saída entalada entre o punho e o relógio
(não esquecer o quê?)
a mão de uma criança que o sono deixou entre os peitos de uma mulher
(avó?),
Estação terminal Aveiro
enquanto um sorriso muito leve ilumina a face de uma rapariga sozinha, tão leve que só os olhos o denunciam.
segunda-feira, 3 de março de 2008
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