quarta-feira, 30 de abril de 2008

domingo, 27 de abril de 2008

Ouvindo Beethoven

Pôr do sol nos campos do Baixo Vouga


Sonata nº 32 para piano
(2º andamento)

http://www.youtube.com/watch?v=-cpLyRNePV0

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Estender os olhos em sossego

Campos do Baixo Vouga, perto de Sarrazola

Dia de sol. Acabo de passar a ponte sobre o Vouga, encosto o carro à sombra de uns salgueiros, o rio mesmo ali, cem metros abaixo a ponte velha de cimento agora sem préstimo, vedada nos topos com blocos de cimento não vá alguém lembrar-se de a atravessar de carro ou de tractor
(ele há gente capaz de tudo e mais agora que está na moda o radical)
e só parar na água, o tabuleiro cheio de corcovas, só faltam os cavalinhos e as girafas para parecer um carrossel. Apenas um ou outro pescador lhe dá ainda alguma serventia, é uma forma de passar o tempo estar ali horas esquecidas a olhar a bóia na água, a serrazinar os peixes
- Então picas ou não picas?
a pensar na morte da bezerra, a passar pelas brasas se nem peixes nem bezerra.
Para lá da ponte velha a larga recta do Rio Novo do Príncipe, reflexos de árvores na água escura, lá muito ao fundo, no canal que a distância afunila, a ponte de Vilarinho, e já aqui, à direita, o rio velho, que era esse antigamente o seu caminho.
São nove e cinco
(a hora não interessa nada, mas são nove e cinco)
quando começo a caminhada. Vou andando pela estrada de cimento
(para mim é a estrada de cimento, como um outro caminho mais à frente é o caminho das amoras, um outro o caminho da comporta e outro ainda o caminho da vala, fui eu que os descobri para mim, acho-me no direito de os nomear a meu gosto).
Vou sozinho e isso não me incomoda
(o Rómulo de Carvalho a justificar-me
- Gosto muito de estar comigo
e eu a concordar com ele, a dizer que sim com a cabeça).
À direita uma vala, plantas aquáticas, caniços e, para lá da vala, ladridos de cães sem cães, campos, árvores, pastos
(verde, verde, verde)
vacas
(não as vacas Mac Donald's em campos de concentração, com mugidos de lamento, sem ponta de verde, sem nada que se pareça com verde, não)
vacas na erva, no verde, espaço à farta, sombras
(até para ser vaca é preciso ter sorte)
campos de cultivo, milharais fechados por cortinas de árvores.
De um e outro lado da estrada, bordejando-a, salgueiros, amieiros, choupos, um ou outro carvalho, silêncio, o coaxar das rãs, silêncio, o canto dos pássaros, silêncio, o zumbido distante de um tractor, outra vez um latido de cão, agora mais longe, e de novo silêncio, silêncio, e tantos verdes no verde, e o azul por cima, e o vento, e o sussurro da folhagem.
Uma carrinha de caixa aberta que vem das minhas costas buzina ao passar, um braço estende-se fora da cabine numa saudação, respondo com um erguer de braço, sem palavras, só o braço
- Bom dia, amigo
dois braços que se conhecem já de outras vezes por ali, basta levantarem-se para dizerem o que é preciso, e não mais do que isso. A carrinha pára umas centenas de metros à frente, quando lá chego ficamos um bocado à conversa
(não os braços agora, nós inteiros)
pouco tempo, coisas banais, e sigo.
De novo o silêncio, uma breve hesitação
- Vou por aqui ou por ali?
lembro-me dos cães que, por ali
(o caminho das amoras)
me costumam saltar ao caminho, ameaçar as canelas, mas venço a cobardia com a ajuda de uma vara que apanho do chão
(também já descobri que ao gesto, basta o gesto, de me baixar para apanhar uma pedra os cães tornam-se de súbito cordatos, retiram-se discretamente pedindo desculpa pelo incómodo
- Pode passar, esteja à vontade, não o tínhamos reconhecido).
Já se vêem amoras, ainda verdes, nem sequer vermelhas, quando estiverem pretas, lá para Agosto, hei-de fartar-me, a Carolina há-de vir comigo algumas vezes, gosta muito de amoras como eu, já estou a vê-la
- Olha, avô
a estender a mão
- Essa não, Carolina, ainda está verde
a meter amoras pretinhas à boca, às vezes a lambuzar-se toda em saltinhos de contentamento.
Passo o começo do esteiro que vai dar à comporta, há um caminho por aí mas hoje não, sigo ao longo da vala para nascente
(este, leste, obrigado, D. Célia, sempre me serviu de alguma coisa aprender os pontos cardeais nas aulas de Geografia).
É costume encontrar cegonhas por estes lados, e garças, no Inverno e no começo da Primavera também patos, os milhafres todo o ano planando lá no alto, máquinas perfeitas de voar, e de novo o silêncio, o canto dos pássaros dentro do silêncio, o verde a toda a volta, o azul por cima, o vento nas ramagens
(tão doce o vento nas ramagens)
o mundo subitamente em paz, o coração num pulsar tranquilo a estender os olhos em sossego e a desejar que o tempo não passe.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Ouvindo Schubert

Lieder (Nacht und Traume)






http://www.youtube.com/watch?v=nLhuhDhPncA

Monsaraz

O sol
é um punhal
ardente.
A luz
esventra
todas as
penumbras.
E no
silêncio
pungente
o branco
grita
torturado.
Uma fímbria de sombra jaz sob um beiral.

domingo, 20 de abril de 2008

Quem é que vai acreditar que já fui menina?

Hoje
(para dizer a verdade quase todos os dias, ou todos os dias mesmo)
a velhice acudiu-me à cabeça enquanto descansava
(tentava descansar)
os ossos no meu canto do sofá
(passam a vida a reclamar agora os ossos)
e repisava os azedumes da vida, quer dizer, não já propriamente vida, este ramerrão magoado em que o melhor que me atrevo a esperar de cada dia é que não me traga nada pior que o anterior.
Quando foi que me tornei velha? Só sei que olho para o espelho
- Quando é que ficaste assim velha, Natércia?
e a Natércia que o espelho me devolve não tem nada daquela Natércia que está na fotografia em cima da cómoda, e no entanto sei que já fui ela e lembro-me de que quando era ela pensava, como toda a gente
(acho que toda a gente)
pensava
- Nunca hei-de ser velha
ou nem sequer pensava no assunto, qual velhice, a velhice é para aqueles jarretas que tiveram a infelicidade de nascer há muito tempo, agora eu, tanta vida pela frente. Isso quando era aquela da fotografia, mas mesmo muito depois, quer dizer, há uns doze, quinze anos atrás, quem me havia de dizer
- Quem te havia de dizer, Natércia
o que o espelho me atira agora à cara sem nenhuma compaixão, isto apesar de já nessa altura algumas partes do corpo me irem beliscando o sossego
- Ainda hás-de ficar um trambolho como aquela
mas eu sem querer acreditar
- Ficar assim, eu?
Agora, quando saio à rua
(quando me arrasto até à rua, raspando os sapatos no chão em passinhos miúdos)
vejo a lástima que sou nos olhos dos outros, nos olhares disfarçados por detrás dos olhares sorridentes
- A Natércia, coitada, quem a viu e quem a vê
ao que cheguei, ter de sofrer a pena dos outros, o dó de mim mesma
(que treta essa história de dizerem que velhos são os trapos, quando lá chegarem vão ver se são só os trapos)
- Estás um trapo, Natércia
e o espelho a concordar, sentir-me humilhada por mim mesma por me ter tornado este trambolho ambulante
(cada vez menos ambulante para dizer a verdade)
isto apesar de
- Então, D. Natércia, está com óptimo aspecto
como se eu não soubesse o que óptimo quer dizer, eu a ver a mentira à légua, vejo mal mas ainda consigo ver-me ao espelho
(nessas ocasiões acho que até gostava de ver pior)
apetece propor
- Quer trocar?
mas ainda que o aspecto fosse já não digo óptimo, ao menos bom
(que nem por sombras)
e o resto, o que não se vê, as vísceras num desarranjo permanente apesar de montes de comprimidos todos os dias que às vezes até me baralho, o coração sempre a avisar-me
- Julgas que tens vinte anos?
obrigar-me a parar quatro ou cinco vezes para subir a miséria de dois lanços de escadas em passo de caracol e mesmo assim sabe Deus, eu que em nova subia três e quatro andares com uma perna às costas, a espinha aos gritos por coisas de nada, um calvário calçar os sapatos, apanhar uma porcaria qualquer do chão, a esferográfica de fazer as palavras cruzadas, para não ir mais longe, que o sono às vezes faz deslizar para a carpete
(um nevoeiro de chumbo a pesar-me na cabeça, a fazê-la despenhar-se, o queixo numa pancada contra o peito a travar-lhe abruptamente a queda, a fazê-la subir de novo como uma bola atirada ao chão, na televisão por instantes vultos indistintos, palavras sem sentido, o nevoeiro a adensar-se de novo, o queixo outra vez a descair)
um calvário portanto apanhar uma porcaria qualquer do chão, a esferográfica de fazer as palavras cruzadas por exemplo
(acho que já tinha dito isto, ou não? Bem, tanto faz)
para já não falar do cocó do cão
(que é quem ainda me vale para ter alguma companhia desde que Deus levou o meu Ernesto)
quando o levo a arejar à rua, já me lembrei de fazer como os vizinhos que deixam a trampa dos cachorros espalhada por todo o lado, uma vez até por descuido
(que eu ando sempre a olhar para o chão por causa disso)
aconteceu-me pisar um cocó, o trabalhão que foi para fazer desaparecer o pivete dos sapatos, sabões, detergentes, escovas, até uns borrifos da minha água de colónia que me farto de poupar porque para a miséria da minha pensão é caríssima
(mas também não posso andar por aí a tresandar a velha, não é?)
e mesmo assim durante uma semana parece que tudo me cheirava a cocó de cão.
Um calvário, tudo por causa dos ossos desconjuntados numa reclamação uníssona, numa vozearia rangente que me parece atrair as pessoas às janelas, às vezes até me lembro do meu falecido Ernesto que Deus tenha em descanso, também se queixava muito dos ossos, coitado, ele a queixar-se das costas
- Ando com umas pontadas aqui em baixo
e eu a animá-lo
- É o tempo que está a mudar
(ela a pensar que me animava mas eu
- Porque é que quando eu tinha vinte anos o tempo nunca mudava?
e não eram só os ossos, claro, outras coisas, as noites mal dormidas, a próstata a fazer-me levantar três e quatro vezes para ir à casa de banho, ficar uma eternidade sentado na sanita a gotejar esforços, voltar para a cama a arrastar as chinelas sonolentas, a matutar na última consulta
- O senhor doutor acha que vai ser preciso fazer a operação?
e o médico a pensar que me sossegava

- Quando sai ainda não precisa de fazer um mapa dos urinóis da cidade, pois não?
mas o certo é que as noites eram um desassossego, deita, levanta, deita, levanta, e afinal foi mesmo a próstata, vá lá a gente fiar-se nos médicos)
mas o que o levou foi mesmo o malzinho da próstata, tão magro para o fim que até fazia impressão olhar para ele, coitado, que Deus o tenha em descanso.
Às vezes ganho coragem
(que é preciso coragem, não julguem que não)
e ponho-me a olhar para mim mesma, as pernas, por exemplo
- Quem me trocou as pernas?
cordas e nós arroxeados, nos pés joanetes triunfantes como cabos avançando pelo mar dentro
(o Dr. Gaspar
- Natércia, diga lá os cabos da costa portuguesa
e eu sempre com medo de falhar algum, eu que até gostava tanto de Geografia
- Cabo Carvoeiro, cabo da Roca, cabo Espichel
nesse tempo não tinha cabos nos pés, agora dois grandes cabos)
Carvoeiro? Espichel?
não de certeza o da Boa Esperança, esperança agora em quê, só se for em que os joanetes não vão por aí fora furiosos ameaçando ainda mais furar os sapatos, um martírio arranjar sapatos, sempre dois números acima para poder acomodar os joanetes, depois os pés enormes
(não os pés, claro, os sapatos, mas os pés para todos os efeitos)
para um corpo que teima em não parar de mingar, esperança agora em quê, portanto, só se for em que os joanetes
(cabos)
não vão por aí fora, em que não me engrossem ainda mais as cordas e os nós das pernas, estes trambolhos que já não me querem obedecer, uma a avançar a outra a ficar para trás, renitente
- Já disse que não posso
a acabar por vir mas hirta, de má vontade, emperrando no chão, até outro dia estatelei-me ao comprido no passeio, a carteira à banda no chão largada na aflição da queda
- Ai, meu Deus
uma bola de carne inerte a encher o passeio por instantes
(uma eternidade?)
a ensaiar movimentos desajeitados como uma barata voltada sobre a carapaça a agitar as perninhas, a conseguir por fim pôr-me a quatro, uma voz algures a aproximar-se
(a humilhação a aproximar-se)
- Espere aí que eu ajudo-a
eu a fazer recuar as mãos no chão, a arquear as costas à medida que as mãos se iam aproximando dos pés, a procurar um ponto de equilíbrio, a tentar erguer-me num esforço retesado de carnes flácidas, uma eternidade depois um gemido de pé
- Ai, meu Deus
eu a sacudir grãos de areia das palmas das mãos sem conseguir sacudir a humilhação
- Aleijou-se?
a justificar-me apetecendo-me mas é desaparecer
- Tropecei em qualquer coisa
sem que se visse nada em que se pudesse tropeçar a não ser eu própria, tropecei em mim própria, tropecei na velhice que me ensarilha os pés, eu ali portanto à mercê da piedade ou da chacota disfarçada dos outros, apetecendo-me desaparecer mas tentando um ar natural
(o trambolhão foi um percalço, vejam)
sem pernas perras, a espinha aprumada
(sabe Deus o esforço e mesmo assim)
a ensaiar os primeiros passos da fuga libertadora, mas logo o osso da anca a trair-me, a chamar-me a atenção
- Não achas que estás a abusar, menina?
a tratar-me por menina na esperança de que isso ajude em alguma coisa, menina, quem é que vai acreditar que já fui menina?
E no entanto, de súbito, homens na rua a tomarem-me o gosto com os olhos, a verrumarem-me o decote tecendo imaginações, afectando um ar natural que o olhar enviesado denuncia à légua, enquanto eu, baixando os olhos, me apresso num pudor lisonjeado.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

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De António Lobo Antunes ("O Meu Nome É Legião")

"e aí está o motivo dos santos não sorrirem na igreja, sorrirem de quê e depois no seu caso nem pulmões, nem esófago, mortes macacas, na melhor das hipóteses cabeças em bandejas, leões no coliseu, pedradas, o que é preciso sofrer para ter direito a um altar que espiga e há quem lhes exija bom feitio..."

sexta-feira, 21 de março de 2008

No chão de cimento

Está sentada no chão de cimento, junto à escada e ao elevador que dão acesso ao centro comercial, uma caixita de cartão ao lado, uma criança de colo resguardada num pequeno cobertor puído, os olhos suplicantes no chão de cimento, a dignidade em farrapos no chão de cimento e a esperança e o menino, no chão de cimento.
Estendo o braço, deposito-lhe uma moeda na mão. Olho de relance, junto da caixa, uma folha de papel explicando necessidades, expondo misérias na esperança de uns cêntimos. Vidas humanas caídas no chão de cimento, e uma vontade em mim (o egoísmo?) de sair dali depressa.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Um sorriso tão leve que só os olhos o denunciam

Dentro de momentos vai partir da linha nº4 o comboio com destino a Aveiro
Os já acomodados olham através das janelas os aflitos que correm,
(uns afectando um desinteresse repassado de superioridade aziumada
- A mania de vir sempre à última da hora
outros desejando satisfações mesquinhas que os desforrem dos seus pequenos mundos
- Era bem feito que perdessem o comboio
folgazões alguns
- Acelera, pá
também indiferentes a quem aquilo não aquenta nem arrefenta)
as pernas ofegantes que procuram chegar ainda a tempo de não ficarem na plataforma a ver o comboio ser engolido pela escuridão do túnel, um último esforço,
(há quem pareça conter-se para não bater palmas)
as respirações arquejantes a salvarem-se no último instante no interior da carruagem, fazendo esmorecer as curiosidades e os azedumes, logo de seguida a estação a ficar para trás, para trás, mais para trás, e de súbito a escuridão para lá das janelas.
Diante de mim uns óculos escuros que descansam as unhas pintadas sobre uma revista pousada nos joelhos desistem de perscrutar as trevas do túnel, deslizam para a revista
(a capa da revista a gritar com fotografia e letra avantajada: Descobrimos, Karina Bacchi namora há quinze dias com Ronaldo. Louca paixão. Mãe da actriz eufórica:"É um menino de oiro!" )
Os óculos escuros (adivinha-se) não tarda que levantem voo. Olham a revista mas sem a verem, perdidos agora em sonhos de aventuranças, a sonharem com Ronaldos impossíveis num suspiro de desalento.
Lá muito em baixo a fita escura do rio encrespada pelo vento, as pontes de um e outro lado, casas encarrapitadas na escarpa numa vertigem de queda, casas velhas a que a voragem do tempo deu cores indefinidas, de paredes a esboroar-se e janelas sem vidraças como órbitas vazias, vagões à desbanda num abandono arruinado, uma antiga fábrica em escombros, prédios feios, roupa a secar em cordas nas janelas, vidas estreitas, tantas vidas estreitas que precisam de almejar Ronaldos mesmo que só em sonhos acordados.
Voltam depois à revista os óculos escuros, a virarem as folhas
(a virarem os sonhos)
passando a outros assuntos importantes da actualidade, mexericos variados, divórcios, as maminhas novas de uma actriz, como manter o parceiro sexualmente interessado, receitas para manter a linha (para manter a ilusão de estar viva).
Tantas vidas estreitas a precisarem de almejar Ronaldos mesmo que só em sonhos acordados, os Ronaldos com tantas faces, férias em praias com palmeiras e águas transparentes, um físico perfeito, roupas caras, cabelos soltos em descapotáveis, telemóveis de última geração, festas elegantes, casas de sonho. E em vez disso os óculos escuros obrigados a um subúrbio atravancado de betão, de prédios feios com a tinta a descascar, obrigados a um apartamento acanhado, móveis baratos, paredes rachadas, dinheiro contado,
(o que fazer aos sonhos?)
roupa a secar em cordas nas janelas, vidas estreitas a precisarem de almejar Ronaldos mesmo que só em sonhos acordados.
Próxima paragem Valadares
Quatro andorinhas de loiça pregadas na parede de uma casa,
(Vivenda Adozinda, O meu lar, 1969)
num voo estático entre a janela e a porta, ali a voarem há trinta e tal anos sempre no mesmo sítio, cobertas de pó. (Também em pó a Adozinda?)
16h21, temperatura exterior 25º
O azul ausente do céu, dunas de vegetação rala dobrada pelo vento, um passadiço de madeira sobre as dunas, e o mar a começar logo ali, a vir até nós o cheiro da maresia e o marulho das ondas apesar das janelas fechadas do comboio, o fervilhar branco da espuma sobre os esporões rochosos que emergem da água, o mar a acabar na bruma que encurta o horizonte. Entre a espuma e a névoa um barco perdido, dois vultos perdidos, de pé, que a ondulação faz subir e descer, subir e descer, subir e descer.
Próxima paragem Espinho
Esqueletos arrepiados de barracas na praia deserta, logo a seguir os primeiros prédios, lojas, hotéis, o casino, apartamentos,
(tantas vidas diferentes)
o chiar dos travões, a agitação das entradas e saídas, olhos inquietos que sondam à procura de um lugar, um suspiro de alívio ao acomodar-se, um remexer de nádegas na busca da melhor posição, por fim um sorriso adivinhado de discreta satisfação nos olhos que seguem por desfastio o que se passa lá fora.
Próxima paragem Esmoriz
Um boné vermelho suspenso sobre um rectângulo de relva num pequeno jardim, duas mãos atentas catando coisas do chão,
(ervas daninhas, o tédio?)
o tempo a passar, lento, nem dão por ele estes dois miúdos que não param quietos, calados muito menos
- Vou abrir a porta
um olho duro
(apenas um olho, o outro é uma névoa esbranquiçada)
do pai a ameaçá-los, apesar disso os miúdos
- É só carregar neste botão
o olho esbranquiçado a levantar-se, a oscilar um pouco com os balanços do comboio, a palmada já no ar
- Já vos tinha avisado.
Alguns momentos de sossego, já não era sem tempo, embora seja pouca a esperança de que durem.
16h39 temperatura exterior 25º
Campos de milho, duas vacas cabisbaixas plantadas no meio do verde, alheadas de tudo, só o rabo incansável enxotando moscas que não se vêem.
E de repente, muitos anos atrás, numa caçada,
(no Caramulo?)
o Roque, o Telmo, o meu pai, o Zé Borrego, o Aníbal, eu,
(não sei já se exactamente estes ou só alguns destes ou também outros)
eu miúdo, gostava de ir com o meu pai à caça, ver os perdigueiros amarrados, estremecer com a revoada súbita das perdizes, sentir o cheiro da pólvora queimada. Nós sentados a uma sombra a escorropichar os cantis, a descansar uns momentos, o Zé Borrego agastado com as moscas que não o deixavam em paz, a sacudi-las com gestos resignados, e o Roque
(sim, o Roque, lembro-me bem)
- Faz-te muita falta o rabo, ó Zé.
Temperatura exterior 24º
Mais casas que passam, um caminho que corre por instantes ao lado do comboio e cessa de repente, a mancha escura de uns eucaliptos
(depressa, não gosto de eucaliptos).
- Avô, sabes até quantos sei contar?
O avô por detrás do jornal, a segurá-lo com dificuldade no meio da névoa do sono
- Até quantos?
a voz entaramelada, um fio cambaleante, e o miúdo
- Quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro
o jornal a desabar de repente sobre as pernas sobressaltadas, as pernas logo num elogio estremunhado
- Sim senhor, agora tens de aprender a contar até cinquenta
indignado o miúdo
- Ó avô, estás a dormir?
Próxima paragem Salreu
Um telemóvel a ladrar de repente
- Estou
a dona a falar alto, como se todos estivessem interessadíssimos na sua vida
(alguns se calhar estavam, os olhos a olharem para um lado e os ouvidos a olharem para a conversa).
Ninhos de cegonha no cocuruto dos postes de alta tensão, esteiros com nuvens, uns sapatos pletóricos donde emergem tornozelos inchados mais largos que os sapatos, por cima das meias uma nesga de pele escamosa, olhos que desistem de lutar contra o sono, braços e troncos oscilando ao ritmo dos balanços do comboio, uns calcanhares escuros e coriáceos escapando de umas chinelas, umas calças de ganga com tamancas vermelhas e unhas pintadas de vermelho,
Próxima paragem Cacia
uma tirinha de papel que se apressa para a saída entalada entre o punho e o relógio
(não esquecer o quê?)
a mão de uma criança que o sono deixou entre os peitos de uma mulher
(avó?),
Estação terminal Aveiro
enquanto um sorriso muito leve ilumina a face de uma rapariga sozinha, tão leve que só os olhos o denunciam.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A minha casa

Esgueira - Largo do Pelourinho e Rua Bento de Moura
(década de 1950)
Hoje, por um acaso, ao folhear o livro "Aveiro, Silhuetas do Tempo que Passa", de Amaro Neves e Carlos A. Ramos, deparei com esta fotografia.
Olho-a, e é como um clarão iluminando a memória, avivando imagens desbotadas. Não é o pelourinho que me prende o olhar, nem o casarão dos Paços do Concelho, esses ainda hoje lá estão. O que já não está é a casa ao fundo da rua, a que foi a minha casa, não a primeira mas a primeira de que me lembro, andaria eu pelos seis, sete anos.
O casarão à direita (que só muito mais tarde vim a saber que foram os antigos Paços do Concelho), era por esse tempo a escola primária. Frio, escuro, desconfortável. Lá aprendemos a juntar letras e números, alguns bofetões e reguadas ajudavam quando se fazia necessário.
Nos degraus do pelourinho ainda está sentada uma mulher velha, velha para os meus poucos anos. Já não lhe distingo as feições, o nome sim, recordo-me, Ti Maria Ceboloa. Está vestida de preto, tem um xaile pelas costas, um lenço também preto na cabeça. Ao seu lado, no último degrau, o mais largo, um cesto grande, redondo. Ganha a magra vida a vender fruta, alguns legumes.
Quando a escola acaba, a miudagem derrama-se pelo largo, um ou outro compra uma maçã ou uma pera, um pêssego, às vezes uma romã que estalou mostrando os bagos túmidos, segue depois cada um o seu caminho. Ali vou eu também, sou um dos miúdos, a minha casa está logo ao fundo da rua.

Silêncio

Baixo Vouga

Estender o olhar e ver o silêncio pousado levemente sobre tudo o que os olhos vêem. Só às vezes, junto a mim, o rumor áspero dos caniços ou o murmúrio líquido da folhagem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Enganar o tempo

Baixo Vouga

Hoje, enquanto fazia uma das minhas habituais caminhadas pelos campos do Baixo Vouga, dei comigo a pensar que este exercício a que me "obrigo" quase diariamente não passa, se calhar, de uma tentativa para enganar o Tempo. Mas não se trata, propriamente, de uma obrigação, ou é uma obrigação a que se mistura uma boa dose de prazer, proporcionada pela visão da natureza - as águas, o rumor das árvores, o céu, uma nuvem que passa tocada pelo vento, um caminho estreito ladeado por caniços, as flores que trazem a Primavera, os tons acastanhados do Outono, e, por cima de tudo, envolvendo tudo, o silêncio. Prazer acrescido, aliás, pela música clássica que não me dispenso de ouvir desde que, no Natal passado, me ofereceram um MP3.
Mas voltando ao Tempo. Enquanto caminho, imagino cá para mim o grande safardana a mirar-me, diluído no espaço invisível, ruminando com prazer malévolo:
- Este pensa que me engana, que não ando de olho nele.
Eu sei que andas, grande sacana, ao teu olho implacável, mais que o do Big Brother, nada escapa. Mas ainda assim vou fazendo pela vida. Enquanto puder. O que quer simplesmente dizer - enquanto o ânimo não me abandonar de todo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uma pequenina luz


O nome deste blogue é plagiado. De Jorge de Sena. Do seu belíssimo poema com o mesmo título. Aqui fica.

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola...em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.